Fiquei me perguntando porque o clipe acima me tocou tão profundamente me fazendo ir ás lágrimas na primeira vez que vi e escutei, mas desde o começo do ano eu não consegui uma explicação racional pra isso.
Hoje, depois de algum tempo, acho que consegui chegar uma conclusão, não só do efeito que causou em mim, mas em milhares de pessoas do nosso país.
Primeiro, é uma música que fala de amor. Amor simples e singelo e verdadeiro. Não fala da traição pregada como coisa boa das letras dos "funks" nacionais. E não é o amor meloso e falso das músicas dos sertanejos que logo depois cantam que querem ir pra farra pegar todo mundo.
A repetição da letra como uma reza e a repetição da palavra "amor" trouxe a mim tudo aquilo que faltava hoje na música brasileira: simplicidade e veracidade. Acho que não só eu precisava disso...
E as imagens também falam. São pessoas felizes numa "comunhão musical" entre amigos. Felicidade verdadeira. Não é a felicidade química das pistas de dança das boates. Não é a felicidade alcoolizada dos pagodes da vida. É a felicidade sóbria e pura.
Essa é uma música que já marcou a minha vida, principalmente por aparecer num ano em que eu tô começando a aprender o que é o amor e o quanto ele é importante na minha vida.
No começo do ano eu entrei numa seita que tá mudando minha vida.
Temos encontros na maioria dos domingos onde na nossa comunhão ao invés de vinho tomamos café de uma embalagem roxa e ao invés de hóstia dividimos um pão recheado chamado "Catarina".
Como hinos de louvor tocamos e criamos músicas que expressam o que sentimos.
Ando até achando que eu posso ser capaz de amar um dia...
E também tô aprendendo que o amor é superior a tudo no mundo, como dizia Lennon e só agora eu começo a entender: "All you need is love!"
E é com esse amor que eu tô tentando preencher os espaços vazios da minha alma e até mesmo tirar tudo de ruim e imprestável que a enche hoje para dar espaço a esse novo ingrediente. Esse ingrediente tão delicado que infelizmente azeda fácil nas mãos dos homens.
Pra me conhecer. Pra me entender. É preciso que eu confie.
Pra mim a confiança não é aglo que aparece ao acaso. É como pedra bruta que se transforma em jóia rara depois de lapidada. Mas é uma lapidação que demanda muito tempo e cuidado. Qualquer erro pode transformar a pedra em pó.
Eu confio de verdade em pouquíssimas pessoas que ao contar sobram dedos de uma mão. Mas em nenhuma delas eu confio cem por cento. Eu não sou cem por cento confiável. Seres Humanos não são cem por cento em nada.
Mas mais difícil do que adquirir confiança em alguém é perdê-la. É dolorido saber que você cedeu um pouco de si a alguém que não deu valor a isso.
Talvez eu seja desconfiado demais. Mas para mim o meu voto de confiança não é dado somente àqueles que são verdadeiros comigo e sim para os que o são com mundo em sua volta.
Não tem a minha confiança aqueles que se dizem crentes de algo que não praticam. Não têm a minha confiança aqueles que mentem para a pessoa que dividem o leito. Não têm a minha confiança aqueles que mentem inconsequentemente.
Para mim confiança não depende apenas de um ato. Depende do que se é.
Antes de tudo. Antes da razão. Antes dos conceitos.
Existiu um menino.
Esse menino gostava de acordar ao som de Roberto Carlos na vitrola.
Gostava de ir dormir ao som de MPB ou Pink Floyd também na vitrola.
Existiu um garoto que ganhou uma vitrola portátil que funcionava com 4 pilhas grandes, onde ele ouvia discos de histórias e músicas infantis.
Ele gostava de ver quando um monte de amigos dos seus pais e tios se juntavam em casa para tocar instrumentos. Esperava por isso durante toda a semana.
Esse garoto cresceu em meio a festas onde as pessoas ouviam Titãs e Legião Urbana. E essas pessoas falavam de coisas esotéricas e totalmente estranhas a ele mas que mesmo assim o fascinava.
Esse garoto fazia a irmã rir no berço com a mamadeira na boca só pra ver ela derrubando o leite e a mãe xingar.
Ele tinha um mundo imaginário inteiro no quintal de casa.
Ele tinha vontade de ter super-poderes.
Ele tinha sonhos tão grandes e impossíveis mas que naquela época não pareciam impossíveis.
Para ler ouvindo "O Ciúme" de Caetano Veloso na voz de Geraldo Azevedo.
É estranho saber que as pessoas sentem dor de formas totalmente diferentes. É difícil imaginar que outro tenha uma dor maior que a sua. É ruim sentir a dor do sorriso que não é para si. Dói demais sentir o que não se queria sentir.
Dói saber que ninguém nunca vai saber da dor de que se está resmungando. Dói saber o que eles pensarão erroneamente.
Fácil é julgar a dor do outro. Difícil é se render a um caminho sem dor. É doído querer tirar do outro o que o faz bem. É doído querer fazer o bem a quem não se pode.
Para ler ouvindo "Windstorm" do School Of Seven Bells
Por que é tão difícil aos leigos deixar de querer moldar o barro? Por que não deixam essa tarefa aos verdadeiros artesãos? Mão leigas não sabem da consistência do barro e de como ela se comporta nas situações impostas pelos dedos que deslizam sobre ele. Não sabem ao certo o resultado daquilo que querem moldar.
Oleiros vêm além. Eles enxergam na lama algo bonito e apenas contribuem para que melhore. Mas sempre respeitando as suas propriedades, limitações e dificuldades. Sabem que só assim chegarão num belo vaso. E que esse vaso um dia poderá abrigar flores que o deixarão mais bonito ainda. Os leigos não sabem disso e querem moldar vasos. Tentam e, fatalmente, acabam com um monte de lama emaranhada nas mãos.
O que me consola é saber que um leigo pode, com persistência e com o tempo, se tornar, quem sabe, um artesão.
Quem sabe como cruzar a ponte do que se é para o que se quer ser? Quem sabe qual o momento de cruzá-la? Como saber se devo deixar toda a bagagem para trás: será que não me arrependerei? Será que chegando ao outro lado eu não descobrirei que o lado certo era o de cá? Mas é pior a dúvida de não saber como seria o outro lado ou saber que não é o que se espera? O fato é que do lado de cá as cores já não chamam tanta atenção. O vinho não tem mais sabor. A necessidade de novas-velhas sensações é pungente.
Para ler ouvindo "Paisagem Da Janela" com Lô Borges e Milton Nascimento
E é sempre essa sequencia lógica de sons que acaba fazendo sentido no final das contas. Essa sequencia que em toda sua perfeição matemática acaba trazendo uma sensação tão abstrata e sublime.
É sempre a música.
É aquela que se lembra junto com o rosto de alguém. Ou aquela que se ouvia a noite antes de dormir pela voz da mãe e que só pra você tem esse sentido.
É aquela do Roberto que se ouvia todos os finais de semana ao acordar.
É aquela daquele vinil de rock psicodélico que se ouvia de tarde depois do almoço em alguns domingos para se cochilar na casa do pai.
É aquela que parece que só você conhece e que você ouve a noite sozinho.
É a música que me faz refém da vida. É ela que me dá esperança nas horas de desespero. Ela que me acalma. Ela que me acalanta. Ela que me estende os ombros para chorar. Ela que me envolve nos momentos de alegria.
As coisas são estranhas para quem sente um vazio por dentro e não sabe o que se falta.
O que me falta quando vivo rodeado de pessoas que me admiram e me aceitam e me dão liberdade de ser o que sou?
O que me falta quando tudo o que desejo sei que com um pouco de paciência conseguirei?
O que me falta quando tenho amigos com quem se pode compartilhar vários momentos bons, cada um a seu modo?
O que me falta quando sei que estes amigos me ouvirão se precisar?
O que me falta quando sei que tenho o apoio da família mesmo se tomar a decisão mais inusitada?
A angústia de não saber o que pode preencher este vazio é o que faz com que do nada os olhos se encham de água por qualquer motivo: alegria, tristeza, surpresa, carinho.
Essa ignorância é o que me move a querer ver o mundo novamente com os olhos de um menino para que assim eu possa descobrir algo que eu tenha deixado de viver.
Para ler ouvindo "I'll Go Crazy If I Don't Go Crazy Tonight" do U2.
São 10 horas da manhã e eu estou sentado em uma sala onde está tendo um curso de formação para o comércio. Na minha cabeça o trecho de Creep "What the hell am I doing here? I don't belong here." martela na minha cabeça repetidas vezes. Olho ao redor e apenas vejo pessoas com as quais não tenho um mínimo de afinidade. Na frente, um ser diz coisas que para mim não fazem o menor sentido e que eu não quero que façam, nem preciso. E então eu penso no que poderia estar gastando meu tempo. Até dormir seria melhor. Bem melhor. Lembro que eu tenho que usar isso como uma oportunidade pra chegar onde eu quero. Mas não é fácil... Decido, enfim, ignorar a situação. Tudo passa.
Mas o que me faz "ganhar" coisas que eu não quero? Qual o poder de atrair as coisas que são opostas a mim é esse que eu tenho?
Então abafo meus gritos com o prazer de correr riscos que eu não precisava estar correndo. Adentro um submundo escuro pelo qual me fascinei por causa da sua forma anônima de prazer.
E escondo carências e necessidades debaixo de um tapete grosso e pesado e sujo.
E despejo ironia como um rio que desagua no mar.
Alimento raiva e insegurança como animais de estimação.
Hoje percebo que ignorando tudo o que me atingiu até hoje na verdade eu estou contribuindo com o crescimento de um tumor na alma, o qual ás vezes tenho certeza ser maligno.
Para ler ouvindo "Heavens To Purgatory" do The Most Serene Republic.
O que te faz arrepiar? O que te faz sentir o coração batendo mais forte? O que te atrai? O que te encanta?
A vida é feita de sensações, boas ou más, mas que devem ser sentidas, degustadas a todo instante. Ao ler as perguntas acima alguns (na verdade creio que uma grande maioria) podem imaginar como resposta a pessoa amada. Outros podem imaginar uma grande aventura pelo mundo. Outros podem imaginar uma grande viagem por meio de entorpecentes.
Eu penso em um show de uma banda que eu gosto. Ou, melhor ainda, em uma apresentação minha. Nada me encanta mais que o palco e o poder que ele me dá. Mas faz tanto tempo que eu não sinto esse poder...
É bom perceber que você está sendo percebido. É melhor ainda quando se percebe que as pessoas gostam de você ali, naquele momento tão íntimo que é cantar. Pois com (e somente com) o canto, eu consigo ser verdadeiro para mim mesmo. É quando me exponho.
É quando eu me arrepio de verdade. É quando meu coração bate no ritmo da canção. É quando eu sou seduzido por sons. É quando eu canto.
A vida é um fio frágil. Mas é um fio que prende um universo inteiro. Tem uma hora que a gente percebe o universo ao nosso redor e sente a necessidade de senti-lo. Senti-lo através de cada semínima dentro de uma música. Ou através de cada risada dos amigos embriagados numa noite de festa.
Sentir o universo através do vento gelado no rosto em plena madrugada. Também pelo "sorriso" de um cão ao abanar-te o rabo e saber que aquele é um sentimento totalmente puro.
E então começa-se a manter um vício de sentir a vida ao redor. Um vício que não se compara a nenhum outro. E a gente percebe que o universo ao nosso redor é o pão quente feito pela vó. É todo momento que estamos ao lado da nossa mãe. É a conversa surreal que se tem com o pai. É todo aquele momento de brincadeira que se tem com os irmãos.
Acaba-se chegando a conclusão de que o universo ao nosso redor é mais rico quando mais próximo. E que o meu universo é composto por vários universos que passam em minha volta e que cada um tem o seu tempo em passar, como um cometa que rasga rapidamente o firmamento e não esquecemos, ou um satélite que sempre está ali e ás vezes esquecemos de dar atenção e outras vezes olhamos apaixonados.
O universo ao nosso redor faz-se presente quando outro universo faz com que, num simples toque, nossa pele se arrepie. Ou quando as palavras vindas de outro nos fazem sentir bem.
Tudo isso está dentro de um emaranhado feito pelo frágil fio da vida.
Para ler ouvindo "(Antichrist Television Blues)" do Arcade Fire.
Hoje eu percebi que posso viver bem com meu lado bom e meu lado ruim. Hoje eu percebi, novamente, que mesmo quando se acha que nada de bom pode acontecer, acontece. Hoje eu percebi que não sinto mais dores no corpo. Hoje eu percebi que estou renovado para o que há de vir. Hoje eu percebi que não devo me importar com a opinião de quem não me conhece, no que se trata de algo íntimo. Hoje eu percebi que os meus objetivos são os meus objetivos e que ninguém precisa entendê-los.
Ás vezes eu sinto vontade de expressar tudo o que passa no meu emaranhado de neurônios mas alguma coisa me impede. Eu sempre paro na hora H. Mas de certa forma entendo o que me bloqueia de ser afetivo: é que quando eu dei afeto, muitas vezes não obtive o retorno esperado. Porém a vida é engraçada e ás vezes quando eu nem imaginava estar fazendo bem a alguém, essa pessoa se mostra encantada por qualquer gesto, até o mais bobo, que eu, naquele momento, deixei escapar.
Não é possivel decifrar uma pessoa por inteiro nem no tempo de uma vida.